CARIDADE

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Nos dias 3 e 4 de novembro de 2016, ocorreu, em Florianópolis, o 1º Congresso de Inovação da Advocacia, organizado pelo pessoal do blog Advogado no Controle. (E, só um adendo, foi um Congresso sensacional, não somente para os advogados, mas para todas aquelas pessoas que pensam em inovar e empreender na vida, mesmo que não tenham empresa.)

congresso de inovação da advocacia

Uma das palestras mais interessantes foi proferida pela Gabriela Werner, sócia fundadora e CEO do Impact Hub de Floripa. Ela falou sobre “espírito colaborativo”, algo que já vivencia e incentiva em seu trabalho. E uma das coisas que ela mencionou ficou ressoando na minha mente:

“O sucesso é feito de finanças saudáveis + impacto positivo.”

Por “finanças saudáveis” entenda-se: tanto de onde e como está vindo o dinheiro da empresa quanto de que forma está pagando pelo serviço de quem trabalha ali.

Já o tal do “impacto positivo” nos faz questionar o que uma empresa está gerando de valor. Ela está impactando positivamente de forma regional? E de forma global? Isso tem sido um grande diferencial para muitos negócios. O mundo nos pede para olharmos além dos nossos umbigos. Preciso gerar valor para mim, para quem trabalha para mim e, também, para quem está ao meu redor. Com isso, todos nós saímos ganhando.

global mundo mundial cidades

Gosto desse tipo de reflexão, pois acredito que não sirva apenas para empresas, mas para cada pessoa que queira fazer algo de bom nesta vida. Por isso, hoje compartilho com vocês um artigo que escrevi em 2007, para o meu antigo blog (o Desanuviando). Nele, conto um exemplo de como “impactar positivamente” o entorno. Gosto muito deste exemplo porque foi um dos primeiros que me chamou a atenção para o fato de que cada pessoa, dentro das suas possibilidades, é capaz de gerar valor para aqueles que estão ao seu redor.

CARIDADE

Um respeitado médico de Florianópolis, conhecido dos meus pais, construiu, faz um tempo, uma casa de música para a população de um município bem pequeno de Santa Catarina. Para quem não soube dessa notícia, vou contar um pouco sobre o que houve por trás de uma simples casa-escola de música.
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O tal médico, certa vez, foi a um congresso de medicina na Europa e se encontrou com um amigo, também médico, mas alemão. Em uma conversa fora dos campos da Medicina, esse amigo disse que aprendera a tocar piano quando criança e seguia tocando esse instrumento até hoje. O médico de Florianópolis ficou com isso na cabeça e atribuiu a excelente formação que via no amigo, em grande parte, a esse conhecimento musical.
pianista piano música clássica
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Um tempo depois, o médico brasileiro comprou e reformou uma casa antiga em um município próximo a Florianópolis. Esse lugar foi colonizado por alemães, o que é denunciado pelos traços físicos de seu povo. O médico e sua família, na hora de reformar e cuidar da casa, tiveram toda a ajuda necessária do povo local. Pensando em uma maneira de retribuir, ele se lembrou do amigo alemão e resolveu abrir um espaço em que as crianças de lá pudessem aprender música sem pagar nada.
Algumas considerações feitas pelo médico:
O Brasil não é só Axé. Nós tivemos influências de vários povos e, por isso, também podemos ter contato com várias expressões artísticas. Eu pensei na música erudita porque me lembrei daquele amigo e sua formação. Eu não tenho a pretensão de que saia algum grande músico de lá; só queria retribuir de alguma forma pela ajuda que recebo dos moradores, pela água que uso, pelo ambiente que usufruo.
Algumas considerações minhas:
Sempre que vejo um empresário, ou político, ou alguém de posses fazendo algo – por conta própria; não para aparecer! – por uma comunidade ou grupo específico, penso: “Que bom! Tem que fazer mesmo!”. Acredito naquilo que “quem mais tem, mais tem que dar”. Ou seja, quem mais tem condições para oferecer ajuda, mais DEVE oferecer. Mas não somente dar por dar; é dar para retribuir. Eu achei bonito o médico dizer que queria RETRIBUIR pela ajuda que recebe, pela ÁGUA QUE USA, PELO AMBIENTE QUE USUFRUI. Nesse sentido, nem é preciso ser muito rico financeiramente para se ter esse espírito de gratidão e retribuição. Basta habitar uma cidade e morar em um bairro para ter motivos para retribuir: encontrar sombra gostosa na calçada e água potável em casa são coisas pelas quais devemos agradecer. Como retribuir? Cuidando disso já é um bom começo… e por aí vai.
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Quanto ao outro comentário do médico, de que ele não tem pretensão de que saia de lá um grande músico. Ok… Mas sem preparar um terreno, sem plantar, sem regar é que não se colherá nada. Nunca se sabe quando o destino fará nascer um gênio justo naquele lugarzinho. E se já não o há? E se só faltasse terreno para alguém descobrir sua vocação? Como disse, nunca se sabe, mas a gente deve deixar o campo fértil e adubado. Depois, é questão de tempo.
cultivar cultivo agricultura terra plantação
E o fato de aquelas crianças terem contato com a música erudita abre novos campos. Elas, que provavelmente nem viram o mar, terão um pouco do mundo ali dentro. Sons universais, histórias de homens estrangeiros que descobriram seus talentos, a literatura que tem ligação com a música… A pessoa pode continuar sendo um lavrador, pode continuar morando no mesmo lugar minúsculo, mas, como no poema do Fernando Pessoa, fica maior porque passa a ser do tamanho do que vê.
Esse exemplo do médico de Florianópolis mostra que caridade pode – e deve! – ser feita. E mais: ela é uma iniciativa pessoal. Sendo pessoal, qualquer um pode encontrar o seu jeito de ajudar ou, o que acho mais correto: de retribuir, pois, no fundo, é uma retribuição até por termos condições de ajudar. E quando falo em “condições” não me refiro somente às materiais, financeiras. Há um trecho do (perfeito) livro 1984, de George Orwell, que é usado em um contexto bem específico – o amor de um homem por uma mulher -, mas, ampliando o sentido, exemplifica bem o que quero dizer:

“(…) e quando não se tem nada mais para lhe dar, ainda se lhe dá amor”.

amor love coração sol

Com carinho e gratidão,

Rebeca

  • Maevy Dias

    Querida Rebeca, como é bom pensar que não estamos nesse mundo apenas para viver, mas para fazer algo que o transforme para melhor!
    Amo suas publicação pois elas nos ensinam a ser melhor… E isso é algo que busco.
    Beijooooo

    • http://luzdofeminino.com.br/ Rebeca Machado

      É verdade, Maevy. Pequenas coisas, mas com muito amor, começam a fazer diferença.
      Bjo grande, querida!

  • Carolyna Motta

    Artigo sensacional!!! Fiquei demasiadamente emocionada!!!!

    • http://luzdofeminino.com.br/ Rebeca Machado

      Oh, que linda!
      Obrigada pela visita e pelo comentário, Carolyna!
      Bjooos!