Mindfulness – Entrevista com o psicólogo Samson Ching, de Hong Kong

Tempo de leitura: 17 minutos

No post de hoje, apresento a entrevista que fiz, por e-mail, com o psicólogo de Hong Kong: SAMSON CHING.

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Psicólogo Samson Ching, especialista em Mindfulness e praticante de meditação

Samson é formado em psicologia clínica e tem o Mindfulness como um de seus maiores interesses de pesquisa (até por motivos pessoais, pois ele pratica meditação há 2 anos).

Foi na Inglaterra, na Swansea University, onde aperfeiçoou seus estudos na área.

Para ele, Mindfulness é uma forma de manter a mente clara e calma, para vivenciar qualquer tipo de experiência interna (por exemplo, fortes emoções, sensação física) e externa (por exemplo, som de fora) em harmonia. Essa técnica ajuda a liberar mais espaço na mente para se concentrar na tarefa que precisa ser realizada no momento presente. Além disso, Ching defende que praticar o Mindfulness pode dar à mente um descanso (ou seja, não pensar) e aproveitar o estado de paz e silêncio da mente.

Eis algumas perguntas que fiz a ele, e suas respostas:

Rebeca: Samson, o que é Mindfulness?

Samson Ching: Mindfulness é uma IDEIA fundamental na prática da meditação do budismo. Dentro da filosofia budista, cultivar Mindfulness é tratado como um processo de transformação e seu objetivo final é alcançar a libertação, o que significa experimentar a realidade tal como ela é. Mindfulness é definida como “prestar atenção de forma especial: de propósito, no momento presente, sem julgamento”. O objeto da atenção, no momento presente, varia: incluindo pensamentos, emoções, sensações físicas, imagens, sons e cheiros. A parte sutil da atenção plena é o termo “sem julgamento”. Não-julgamento refere-se ao reconhecimento da presença do objeto e observação das suas características objetivas, sem elaboração subjetiva (por exemplo, a dor no meu ombro é uma sensação que aumenta e diminui). Isso é o oposto do julgamento, que oferece um significado subjetivo, baseado em como o indivíduo pensa ou sente sobre o objeto (por exemplo, a dor no meu ombro é irritante e incontrolável).

R.: Mindfulness realmente funciona?

S. C. : Em relação à pesquisa empírica sobre os efeitos psicológicos da prática de Mindfulness, vários estudos demonstraram:

– o aumento da atenção plena e da melhoria de uma série de indicadores de bem-estar psicológico, em vários grupos de pessoas;

– a redução de sintomas de depressão, ansiedade e estresse na população clínica com distúrbios psicológicos;

– uma redução de sentimentos negativos e uma melhoria da qualidade de vida da população clínica com doença física crônica;

– e uma melhoria nas relações interpessoais, nos sentimentos negativos, bem como no estado de humor entre populações não clínicas;

Além disso, há estudos comprovando o impacto da meditação (componente central do Mindfulness) sobre os grupos de pessoas analisado: os efeitos foram comparáveis aos de várias psicoterapias e intervenções comportamentais em pacientes. O Mindfulness apresentou melhoria no relacionamento interpessoal, no quadro de ansiedade, nas emoções negativas, na ansiedade crônica, nas neuroses. Dessa forma, ficou evidente que a prática de Mindfulness promove um aumento geral no bem-estar psicológico das pessoas.

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R.: Quais são os beneficios do Mindfulness na nossa vida?

S.C.: De acordo com a literatura científica pesquisada, estar atento ao momento presente pode ajudar a ganhar e acumular conhecimentos, a fim de alcançar progressivamente uma compreensão mais acurada sobre o eu, os outros, a sociedade e os fenômenos naturais. Na teoria budista, mindfulness e os seus objetivos são baseados em certas suposições subjacentes sobre os seres humanos: Ela sugere que todo ser humano possui um diferente grau de auto-ilusão e percepção equivocada sobre o mundo, que são alimentados por diferentes desejos e estímulos externos. Embora os seres humanos nasçam com a capacidade de estar atento para a experiência interna e externa no momento presente, a mente humana tem uma forte tendência de operar em um modo de “piloto automático” de várias maneiras. Alguns exemplos clássicos são a ruminação de coisas que ocorreram no passado e/ou tentativas de previsões sobre o que pode acontecer no futuro. No entanto, geralmente, os seres humanos desconhecem que essas atividades mentais habituais são o principal obstáculo para estar atento à realidade objetiva e ao momento presente. Com base nesses pressupostos, é, portanto, esperado que o Mindfulness seja benéfico para a população em geral, não se limitando à população clínica. As consequências, tanto interna quanto externa, da prática de Minfulness, são uma variedade de impactos psicológicos positivos, tais como: a redução do stress, diminuição dos sentimentos negativos e aumento dos sentimentos positivos, bem como melhoria na relações interpessoais.

R.: Como podemos praticar Mindfulness no nosso cotidiano?

S.C.: De acordo com o Budismo, é possível praticar Mindfulness (atenção plena) através de práticas de meditação regulares, que se referem a uma variedade de práticas de atenção auto-regulação, tais como: a meditação que se concentra na respiração, a meditação que presta atenção ao corpo e a meditação contemplativa-amorosa (que deseja que o outro ou a realidade seja o que é, e não outra coisa, e, com isso, é possível desenvolver a compaixão – notas da blogueira). A meditação com base na concentração na respiração é considerada a pedra angular em várias escolas budistas de meditação de introspecção (ou de percepção – nota da blogueira). Para exemplificar, isso é conseguido quando nos abstemos dos nossos julgamentos, prestando atenção, de forma consciente, nas sensações físicas diretamente associadas à respiração (exemplo: frequência, fluxo, profundidade e regularidade) e sem alterar o padrão da respiração.

Em termos científicos, a respiração pode ser descrita como um processo fisiológico especial: ela está no ponto de encontro entre a consciência e a inconsciência, comportamento controlável e incontrolável, comportamento voluntário e involuntário. Abstendo-se de julgamentos, experimentando as sensações sensoriais contínuas relacionadas à respiração, detectando os pensamentos errantes habituais, e chamando a atenção para a observação do momento presente, o indivíduo pode, gradualmente, alcançar os insights sobre o que é a atenção plena. Por exemplo, o indivíduo pode notar a diferença entre dedicar-se à atividade mental (ou seja, assistir a qualquer objeto, como pensamentos soltos, não relacionados com as características de respiração) e observar a realidade (ou seja, atendendo à frequência, fluxo e profundidade, e regularidade de ar).

Os conhecimentos adquiridos nesse processo poderiam ser expandidos para diferentes aspectos da vida. Com a prática regular do Mindfulness, as habilidades e a capacidade de atenção e auto-regulação emocional vão crescer.

R.: Qualquer pessoa pode praticar Mindfulness?

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S.C.: De modo geral, é seguro para todos os tipos de pessoas praticarem o Mindfulness. No entanto, o Mindfulness pode provocar emoções fortes ou fazer vir à tona questões profundas do praticante. Então, se a pessoa achar que as emoções desencadeadas são muito fortes, ela deve procurar algum serviço terapêutico. Além disso, para as pessoas que têm transtornos ou sintomas psicóticos (por exemplo, esquizofrenia, delírio, alucinações etc), recomenda-se que peçam ajuda a profissionais da área da saúde mental (por exemplo, psiquiatra, psicólogo clínico), antes de se envolverm na prática do mindfulness . Se esses profissionais disserem que as condições do paciente são adequadas para a prática do Mindfulness, eles o poderão fazer, sendo guiados por um instrutor ou terapeuta qualificado.

R.: A gente precisa praticar mindfulness em um lugar silencioso?

S.C.: De um modo geral, praticar Mindfulness pode ser dividido em: prática formal e informal. Prática formal é a base do mindfulness, onde as pessoas precisam encontrar um lugar tranquilo e acolhedor para a prática, com foco na respiração. Quanto à prática informal, ela aplica o princípio da atenção plena em nossa vida diária (ou seja, concentrar-se na experiência ou tarefa que você tem no momento presente, com abertura e aceitação, sem ruminar sobre o passado ou tentar prever o futuro).

R.: Você pode recomendar algum material ou autores para aqueles que queiram estudar mais sobre Mindfulness?

S.C.: Há uma variedade de materiais para aprender mais sobre o mindfulness. A forma convencional é participar de treinamentos MBSR (Mindfulness-Based Stress Reduction) ou MBCT (Mindfulness-based Cognitive Therapy), conduzidos pelo professor de mindfulness qualificado ou terapeutas em sua comunidade. Eles normalmente adaptam o treino para aulas, encontros e/ou retiros em grupo (geralmente, sessões semanais de 2 horas, por 8 semanas, e retiro de um dia inteiro), e formulam materiais que orientem a prática auto guiada.

Se você é uma pessoa ocupada e o tempo de aula de um programa mindfulness convencional acaba sendo muito exigente para você, você pode escolher uma alternativa de aprendizagem através da Internet. O programa online, fornecida pelo Instituto Britânico de Mindfulness é ministrado por psicólogos, psicoterapeutas e instrutores qualificados.

Com carinho e gratidão,

Rebeca

p.s.: A entrevista ocorreu por email, em inglês. O entrevistado fez algumas referências acadêmicas, fruto de seus estudos em Mindfulness, na Inglaterra, bem como citou dados técnicos e científicos. Somente por questões estilísticas de blog, adaptei ligeiramente o texto e ocultei, na tradução, essas referências.  Contudo, quem tiver interesse em se aprofundar no assunto, de forma mais técnica, segue a transcrição da entrevista, no original, com todos os dados informados pelo psicólogo.

p.s.1: não sou tradutora profissional. Qualquer erro ou observação que queiram fazer, é só me enviar um email. Estou aberta às sugestões! 😉

Interview with Samson Ching

Hello Samson! These are some questions I would like to do about Mindfulness. Take your time to answer them, please.

  1. Can you tell me a little about your career and why did you want to study Mindfulness?

Ans: I will be a counsellor. I was a student studying clinical psychology and mindfulness is one of my research interests. For me, mindfulness is a way to help me maintain a clear and composure mind to live with any kinds of internal experience (e.g. strong emotions, physical sensation) and external experience (e.g. sound from outside) in harmony. It helps release more space in my mind to focus on the main task I am expected to tackle in the present moment. Moreover, practicing mindfulness can give my mind a rest (i.e. not thinking) and enjoy the peaceful and silent state of mind.

  1. What is “mindfulness”?

Ans: Mindfulness has been a fundamental construct in the meditation practice of Buddhism. Within Buddhist philosophy, cultivating mindfulness is treated as a transformative process and its ultimate objective is to achieve liberation, which means experience reality as it is (Harvey, 2004). Mindfulness is defined as “paying attention in a particular way: on purpose, in the present moment, nonjudgmentally” (Kabat-Zinn, 1994, p4). The object for paying attention to in the present moment varies including thoughts, emotions, physical sensations, sights, sounds and smells. A subtle part of mindfulness is the term “nonjudgmentally”. Non-judgment refers to acknowledge the presence of the object and observe its objective characteristics without subjective elaboration (e.g. the pain on my shoulder is a sensation which has wax and wane). This is opposed to judgment which refers to the process of offering subjective meaning based on how the individual think or feel about the object (e.g. the pain on my shoulder is annoying and uncontrollable) (Ching, 2015).

  1. Does it really work?

Ans: Regarding to the empirical research on the psychological effects of mindfulness training, numerous studies have demonstrated the linkage between increased mindfulness and the improvement on a range of indicators of psychological well-being in various populations, such as reduction of symptoms of depression, anxiety and stress in clinical population with psychological disorders (Chiesa & Serretti, 2011; Fjorback et al., 2011; Hofmann et al., 2010), a reduction of negative affect and an improvement of quality of life in clinical population with chronic physical illness (Grossman, Niemann, Schmid & Walach, 2004; Chiesa & Serretti, 2011; Brown, Ryan & Creswell, 2007; Shigaki, Glass & Schopp, 2006), and an improvement in interpersonal relationships, negative affect as well as mood state among non-clinical populations (Sedlmeier et al., 2012).

In addition, Sedlmeier et al. (2012) conducted a meta-analysis with 163 studies to help answer this question. It reported that the impact of meditation (core component in mindfulness training) on the general populations attain an overall average effect size close to medium size (d = 0.45), which is quite comparable to the average impact of various psychotherapies and behavioral interventions on patients (d = 0.50) reported by the meta-analysis with 302 studies from Lipsey and Wilson (1993). Of the 21 psychological variables examined in the meta-analysis from Sedlmeier et al., (2012), five of them obtained a medium-to-large average effect size improvement which includes interpersonal relationship (r = .44), state anxiety (r = .37), negative emotions (r = .34), trait anxiety (r = .32), neuroticism (r = .30). As for the rest of psychological outcome measures with the exception of personality (neutral), they yielded a small-to-medium average effect size ranging from mindfulness (r = .28) to the lowest of measures which was a small average effect size found in emotional regulation (r = .17). Hence, it is evident that mindfulness training is worth to promote to the general public for augmenting the overall psychological well-being and its different facets.

  1. What are the benefits of mindfulness in our life?

According to the literature review from Ching (2015), being mindful to the present moment can help gain and accumulate insights in order to progressively achieve a more accurate understanding about the self, others, society and natural phenomena. In the Buddhist theory, mindfulness and its objectives are based on certain underlying assumptions on human beings (Grossman, 2010). It suggests that every human has different extent of self-delusion and misperception upon the world, which is fueled by different desires and aversive experiences. Although humans are born with the ability to be mindful to the internal and external experience in the present moment, the human mind has a strong tendency of operating in an “automatic pilot” mode in various ways. Some classic examples are the engagement in evaluative and emotionally reactive manner towards the events which happened in the past (rumination) and/or may happen in the future (prediction). However, humans are usually unaware of these habitual mental activities as the primary cause of failure in attending to the objective and ever-changing reality in the present moment. On the basis of these assumptions, mindfulness is therefore expected to be beneficial for the general population in the community but not limited to the clinical population (Sedlmeier, Eberth, Schwarz, Zimmermann, Haarig, 2012). The by-products of such accurate understanding on the external and internal experience are a variety of positive psychological impacts such as stress reduction, decrease in negative affect, and augment in positive affect as well as improvement in interpersonal relations with others (Sedlmeier et al., 2012; Grossman, 2010).

  1. How can we practice mindfulness in our daily lives?

Ans: In Buddhist term, cultivation of mindfulness is through regular meditation practices, which refers to a variety of attention self-regulation practices such as mindfulness breathing, body scan and loving-kindness meditation (Grossman, 2010). Mindfulness breathing meditation is always treated as a cornerstone of various school of Buddhist insight meditations. Take it as an example, this is achieved through non-judgmentally attending to the physical sensations directly associated with respiration (e.g. frequency, flow and depth, and regularity) without consciously alter the breathing pattern. In scientific terms, respiration could be described as a special physiological process lies at the meeting point between consciousness and unconsciousness, controllable and uncontrollable, voluntary behavior and involuntary behavior (Grossman, 2010). By non-judgmentally observing and experiencing the continuous sensory sensations related to respiration, detecting the habitual wandering thoughts, and drawing the attention back to the observation of the present moment, the individual could gradually attain the insights about what mindfulness is. For instance, the individual can notice the difference between engaging in mental activity (i.e. attending to any object, such as wandering thoughts, unrelated to the characteristics of breath) and observing the reality (i.e. attending to the frequency, flow and depth, and regularity of breath).

The insights gained in this process could be extended to different aspects of life. With regular practice of mindfulness breathing meditation, skills and the ability of attention self-regulation will grow.

  1. Does any person can practice mindfulness?

General speaking, It is safe for all kinds of people to practice mindfulness. However, practicing mindfulness may trigger emotion or any deep-seated issues from participant. They should seek counselling service if they think the triggered emotions are too overwhelming. In addition, people who have psychotic disorders (e.g. Schizophrenia) or clinical distress-provoking psychotic symptoms in psychosis (e.g. delusion, hallucination) are recommended to ask for advice from the mental health professions (e.g. psychiatrist, clinical psychologist) before engaging in practicing mindfulness. If they are told that their conditions are suitable for practicing mindfulness, their practice is recommended to be guided by the qualified mindfulness trainer or therapist.

  1. Do we have to practice mindfulness in a quiet place?

Ans: Generally speaking, practicing mindfulness can be roughly divided into formal and informal practice. Formal practice is the foundation of cultivating mindfulness, where people need to find a quiet and cozy place to practice mindfulness such as breathing meditation. As for the informal practice, this is to apply the principle of mindfulness in our daily life (i.e. focus on the experience or task you have in the present moment with openness and acceptance but not ruminate about the past or predict over the future). 

  1. Can you recommend some materials or authors for those who want to study more about mindfulness?

There are a variety of avenues to learn more about mindfulness. The conventional way is to participate into the Mindfulness-based stress reduction (MBSR) or Mindfulness-based Cognitive therapy (MBCT) programme provided by the qualified mindfulness trainer or therapists in your community. They normally includes a group-based format of class time (8 weekly 2 hour-sessions and a full-day retreat) and guided materials for self-practice.

If you are a busy person and the class time of the conventional mindfulness programme is to demanding to you, you may choose an alternative of learning through online. The online programmee provided by the British mindfulness institute is taught by qualified mindfulness trainers, psychologists and psychotherapists.

Remark: the information provided is based on the literature review of my master thesis and my personal opinions. (Samson Ching)