Se Arrependimento Matasse…

Tempo de leitura: 7 minutos

Estou preparando um texto longo sobre a minha caminhada pelo empreendedorismo, pois, desde que resolvi largar a vida de concurseira e mergulhar nessa outra “vida”, várias pessoas têm conversado comigo a respeito, querendo tirar dúvidas – ou porque já começaram a empreender também e se sentem ainda inseguras ou porque estão levando uma vida que as angustia e sentem vontade de fazer o que amam.

O texto grande deve sair nesta semana ou na próxima, mas hoje vou abordar um tema que tem a ver com o assunto: ARREPENDIMENTO.

Para isso, volte comigo no tempo, querida leitora:

Em um domingo frio de 2008, mais especificamente, no dia 06 de julho, em Florianópolis, numa época em que eu morava somente com os meus irmãos, não estava namorando e não tinha nada para fazer, aluguei um filme chamado CLUBE DE LEITURA DA JANE AUSTEN e o assisti, largada no sofá e, muito provavelmente, de pijama e cobertor. Foi então que tive uma das melhores ideias da minha vida: criar um clube de leitura online pra conversar sobre Jane Austen.

Terminei de ver o filme e fui logo escrever o “convite” para atrair um monte de gente (esse convite, você pode ler no meu antigo blog, o Desanuviando: AQUI)

Batizei o clube de leitura com o nome de “CHÁ COM JANE AUSTEN” e, só para resumir, em 2 anos, ele chegou a mais de 200 integrantes do Brasil inteiro (numa época em que o Facebook não “bombava”) e, até hoje, recebo e-mail de gente dizendo que quer entrar nele (daí eu tenho que explicar que, infelizmente, encerrei o grupo em 2010…)

E por que digo que foi uma das melhores ideiais que tive na vida? Porque tomei a iniciativa de fazer algo que amo – ler Jane Austen – , conseguindo reunir, em um grupo, pessoas de todo o Brasil com a mesma afinidade.

Foram dois anos muito empolgantes com o grupo: praticamente todos os dias tínhamos e-mail de alguém comentando sobre os livros que estávamos lendo. Foi algo muito, muito prazeroso! E o mais interessante é que tinha, tanto gente que sabia muuuuito sobre a Jane Austen, como a Raquel Sallaberry, do blog Jane Austen em Português, quanto gente que nunca tinha lido essa romancista inglesa e virou fã dela. (Quem disse que brasileiro não gosta de cultura, né?! É só tomar iniciativas assim, pra encontrar pessoas “perdidas” por aí…)

Porém… em 2010, por conta de estágio, trabalho e faculdade, comecei a me sentir muito pressionada com tudo. O grupo não parava de crescer, e eu precisava dar conta das minhas obrigações. Uma dessas obrigações era: mais cedo ou mais tarde, teria que começar a estudar para concurso público e, portanto, não poderia continuar me “distraindo”.

Ai, se arrependimento matasse…!

Encerrei o clube de leitura, parei de ler Jane Austen (aliás, diminui muito o meu tempo com literatura), parei de fazer tantas outras coisas que amava, pois “meti na minha cabeça” que, para estudar e trabalhar, precisava ter foco e acabar com as “distrações”.

Hoje, olhando para trás, vejo que foi aí que eu comecei a construir minha angústia. E hoje, também, não sei de onde tirei a ideia de que, pra passar em um concurso, eu não poderia me “distrair” com nada. Ter diminuido o meu tempo de leitura (de literatura) foi uma das piores coisas que fiz para mim mesma. Ler sempre foi um alimento para a minha alma. Imagina como eu fiquei, lendo só livros técnicos? Resultado: fui me atolando de trabalho, fazendo cursos que eu detestava, mas que cumpriam a função de “sacrifício”. (E eu achava que sacrificio tinha que ser sinônimo de sofrimento, e não de coragem, superação, aventura…)

Ah, arrependimento…

Se eu tivesse percebido o quanto estaria me enganando (e, de certa forma, até me “aniquilando”), não teria encerrado aquele grupo. Teria mantido ele, não teria me assustado com o seu crescimento.

Daí, ano passado, quando entrei nessa fase de mudanças, uma das primeiras coisas que fiz foi voltar a ter um clube de leitura, pra falar sobre Jane Austen com minhas amigas. Como se não bastasse, também comecei a participar de um outro grupo sobre a escritora, um grupo criado em parceria entre a agência de turismo Fine Destinations e a Sur Livraria, no Mercado São Jorge, e reabilitei o meu clube de leitura online, mas, agora, com outro nome: “O que Jane Austen faria?” (o antigo nome “Chá com Jane Austen”, parece que alguém acabou pegando.) Também voltei a contribuir com textos sobre a escritora para alguns blogs…e o resto vocês já sabem.

Ter voltado a ler literatura e a escrever – duas coisas que sempre gostei de fazer na vida – foram um verdadeiro resgate para mim. E contei tudo isso, justamente pra te convidar a refletir sobre o seguinte:

Quantas coisas você sabe que fazem parte de você, da sua essência, e você está deixando de fazer porque:

– a vida “não permite”;

– suas obrigações ocupam todo o seu tempo;

– acha errado se permitir pequenos prazeres;

– se questiona “o que os outros vão pensar de mim?”;

– te disseram que é preciso focar 24 horas por dia no concurso ou no trabalho;

– algum outro pensamento recorrente… ?

Ou seja, em quantas ideias você tem acreditado e que estão te fazendo mal e te anulando?

Se tem uma lição que tirei de tudo isso é que uma das piores coisas que posso fazer a mim mesma é deixar de estar em contato com a minha própria essência – e que, no meu caso, tem muito a ver com leitura e escrita.

Ter um tempo diário para se permitir esse contato – e, por que não, esses pequenos prazeres? – é questão de vida ou morte… para a sua alma!

Pense bem nisso, querida leitora, antes de abandonar algo que você sente que faz a sua alma se expandir só porque dizem que “é perda de tempo”, “não pode” “é errado” ou “não dá dinheiro”.

Com carinho e gratidão,

Rebeca

P.s.1: No começo do ano, estava indo a uma terapeuta crâniosacral (ver post AQUI) e, quando falei que, durante o tempo que estudava pra concurso, eu levantava toda hora pra tomar água, ir ao banheiro, usar o telefone etc, e que, agora, eu consigo ficar um tempão sentada e me sinto superconcentrada, ela me disse: – Que bom que você levantava. Vc estava dando ouvidos ao seu corpo. Ouvir isso caiu como um bálsamo sobre a minha alma! É que eu me sentia super culpada por não conseguir me concentrar. Hoje vejo que, realmente, eu estava “gritando” para mim mesma, pra ver se prestava atenção aos sinais de que algo não estava bem.

P.s.2: Recentemente, comecei a participar de um grupo de “contoterapia”. É um grupo que se reúne com três terapeutas para estudar sobre os contos do livro MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS, da grande Clarissa Pinkola Estés. Esses encontros ocorrem no Ipê Roxo Espaço Terapêutico e, no último que tive, falamos sobre o conto VASALISA, que trabalha o resgate da intuição. Uma das coisas que foram faladas é que, para esse resgate acontecer, nós precisamos ter um tempo diário para nos ouvir e, isso, nós só conseguimos, deixando as obrigações um pouco de lado e entrando em contato com aquilo que é importante para nós. Detalhe: isso tem que ser feito diariamente.